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sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Carta ao presidente da Volvo.


            Pelotas,1 de Agosto de 1994.

                                   Sr. presidente da Volvo.
        Venho pôr meio desta conversar com o Sr. sim seria uma conversa, um desabafo, um sonho. Sou casada com caminhoneiro, que roda pôr esse Brasil a 24 anos, conhece tudo de caminhão e em nome dele, deste sonho, que tomei  a ousadia de lhe escrever, quem sabe na esperança de realiza-lo. Meu marido é filho de caminhoneiro, por isso posso dizer que nasceu em um caminhão, tudo o que ele faz e sabe fazer bem é caminhão, ele come e respira caminhão. Mas ele é como tantos que sonha em ter o seu próprio caminhão e nunca consegue.
   Ele é o caminhoneiro mais conhecido em Pelotas, como o mais trabalhador, o mais caprichoso, o mais cuidadoso enfim o mais em tudo, eu particularmente acho-o o homem mais incrível como pessoa e como profissional. Já trabalhou em várias firmas daqui da cidade, e nunca fica desempregado, pois todos o querem para trabalhar, principalmente quando compram um caminhão novo e querem que o próprio caminhão se pague. Foi pensando nisso que hoje resolvi lhe escrever, pensei que se ele já pagou tanto caminhão para tanta gente, porque ele não poderia pagar um para ele. Tenho certeza que se ele tivesse uma oportunidade, seria uma realização como homem e como profissional.
Agora mesmo está trabalhando em um globertrotter, que até parece um avião, a gente parece que está em uma nave espacial, e ele ali pagando as prestações do volvo que é de outro, porque a gente não poderia estar pagando as prestações do nosso caminhão, não precisaria ser um globertrotter, poderia ser um volvo qualquer, com a diferença que estaríamos lutando pelo que era da gente.
O Sr sabe que já participamos de vários concursos, sempre na esperança que um dia seriamos sorteados, mas o máximo que conseguimos foi ganhar uma lona e um diploma, por um concurso de “histórias de estradas ´” , mas a luta continua, quem sabe um dia.
Pensei em escrever ao Sílvio Santos, aliás já pensei até em escrever aos E.U.A, pois li uma reportagem que lá eles tem escassez de motoristas e que as vantagens que eles oferecem, são incríveis. As vezes ele pensa em abandonar as estradas, quem sabe pegar em uma empresa de ônibus urbano, ele até já tentou, mas parecia um cachorro amarrado, até doente ficou, pois não era o que queria, o caminhão está no sangue.
Me dá pena de ver ele se matando de tanto trabalhar para os outros, não é inveja... é orgulho que tenho do meu marido, de ver tanto talento se perdendo em prol dos outros e não de si mesmo, é como se o Sr tivesse uma concessionária de carros e andasse de bicicleta. Sabe o antigo patrão dele tinha um mercedinho, trocou por um Scania 111 velho, depois trocou por um 112 também velho, e hoje ele tem um 142 novo, isto tudo em 3 anos, e sabe quem pagou esses caminhões??? Meu marido, chegava a ir e voltar ao Rio de Janeiro em 3 ou 4 dias. Por tudo isto é que penso, porque não o dele?
Nestes 24 anos ele nunca se envolveu em acidentes, a não ser caso de balança por excesso de peso. Tenho o maior orgulho, porque sei que quando ele está viajando, só se Deus quiser que aconteça algo, porque se for por ele não acontece nada, pelos cuidados, pela atenção, pela responsabilidade, as vezes chego até a brincar, que ele gosta mais do caminhão do que de mim.
Já perguntei a ele porque as pessoas que tem condições de comprar um caminhão, não o ajudam a comprar um, ele me respondeu que quem tem condição, compram é para eles, e dão para pessoas como ele pagar.
No começo do ano a gente viu e queria comprar um Alfa, cara chata, ano 1971, era na época que valia $ 12,00 dólares, nós daríamos o nosso carro e mais $ 1,00 dólar, e ainda ficar devendo $ 5,00 dólar, só que do jeito que estava a inflação, não dava para arriscar qualquer negócio. Dava pena de ver o caminhão, ele todo contente quando me levou para ver, me deu vontade de chorar quando vi aquele caminhão todo podre, velho, fora de época.
Sei que nosso patrimônio não é muito, mas mesmo assim me arrisco, temos casa própria, telefone, o terreno também é próprio, um carro chevete 83 inteiro e $ 1,00 dólar e muita vontade de vencer, quem sabe com isto seria  o começo de um volvo.
Sei que posso até parecer petulante, mas mesmo assim me arrisco a lhe escrever e lhe oferecer o que temos para poder começar.  Ele ainda é moço, só tem 40 anos, é um homem forte, saudável e honesto, por isso acredito que pode vencer, só o que precisa é de uma força de alguém que como eu também acredite nele.
Caso o meu pedido fosse aceito, o caminhão ficaria em consignação, como se fosse um lising, só passaria para o nome dele quando terminasse de pagar. Nós temos conta no Bradesco, mas empréstimo em banco é muito difícil, até já tentei.
Quando se passa ai por Curitiba, a gente fica sonhando com esses caminhões tão lindos em exposição e fica sonhando que nem uma criança.
Se por acaso minha carta merecer uma resposta, ou quem sabe uma orientação de alguém que possa nos ajudar, por favor. Vou ficar rezando e torcendo para que Deus lhe ilumine e possa de alguma maneira fazer alguma coisa pelo meu marido.
Não quero que pense que estou lhe pedindo um caminhão, não é isto, só estou lhe pedindo uma oportunidade de poder pagar um, e também não precisa ser um globerttroter, pode ser um usado, contando que a gente possa pagar. Sei que não é difícil não, este caminhão que ele está trabalhando ele é pago de 3 em 3 meses, e só nestes 15 dias que ele foi ao Recife, ele faturou para o patrão $ 4.600,00, então dá tranqüilo.
Desculpe a minha ousadia, escrevi com o coração, coloquei no papel o que estou sentindo, acredito também que o Sr compreenderá, que o Sr é humano e com sentimentos sinceros, acreditando nisso foi que resolvi lhe escrever e a ficar aqui esperando uma resposta .

 “ Que Deus lhe ilumine ´”.



Ps: Nunca recebi resposta dessa carta.

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